quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Imago - parte I

Enquanto trocava palavras descabidas com pessoas tão desocupadas quanto eu, ocorreu-me uma lembrança muito curiosa: uma história incomum, pautada num forte instinto de autopreservação e sem nenhum romantismo. Rememorando os acontecimentos daquela semana, resolvi que era hora de escrever, não com o intuito de instruir ou dar lições de vida, mas só por exercício mesmo. Espero sinceramente que isso tudo tenha realmente acontecido, mas, se em último caso, for fruto de uma mente desviada, que esta mente seja mesmo a minha.

“ATENÇÃO, ESTA NÃO É UMA HISTÓRIA DE AMOR!”

Era o que diziam um pro outro no início de cada conversa. Funcionava como uma senha, que os distinguia dos demais participantes do chat, que eram quase sempre homens velhos e mal casados com fetiches pouco usuais, garotas carentes de atenção e bom senso, e meninos cheios de espinhas ou esteróides com problemas sexuais de ordem diversa.

Eles não gostavam daquela situação, e a cada nova sessão, quando postavam a tal senha, tinham que lidar com uma chuva de propostas para“ transformar esta história num amor de verdade”, “mudar o rumo desta conversa” ou ainda “viver histórias sem amor mesmo”. Foi por isso que decidiram conversar a sós. Depois das devidas providências, estavam enfim no conforto de uma janela privativa e silenciosa.

Resolveram começar de novo, rememorando o que já sabiam sobre o outro. Funcionava mais como um jogo de interesses do que como um exercício de memória: atraia-os a possibilidade de se sentirem o assunto da vez. Ele começou, valendo-se do cavalheirismo de deixar que ela pensasse mais – a verdade é que tinha medo de esquecer o que ela havia lhe contado.

Ele: vc se chama Açucena, odeia ter nome de flor, porque isso te dá uma aura delicada que vc detesta. Tem mais de 20 anos e me basta saber disso, certo!? É a sétima filha de uma família que mora numa cidade pequena, fala 4 idiomas e estuda comportamentos.

(O que ele realmente pensava era: é uma mulher-macho com problemas etários, que fala como gente da roça e impregna cada um desses idiomas com esse sotaque infeliz, o que deve ser muito feio de se ouvir. Escreve pra uma revista de moda de quinta categoria, sobre estampas e babados, mas deve ser bonita e certamente tem dinheiro).

Ela: nossa, vc se lembrou de tudo! Agora é a minha vez: o nome é Levi, tem 25 anos, e está feliz por enfim tê-los completado. Ouve música, lê, vai ao cinema, mas tudo isso como parte de um permanente trabalho de pesquisa para sua função de autônomo. É um livre-pensador.

(Na realidade, Açucena pensava: um sossegado que vive das parcas conquistas que faz. Superestima seu desempenho sexual, e sua beleza física, e se considera um intelectual. Bonito e divertido, pode ser um bom material de pesquisa).


Continua!

2 comentários:

  1. Acho massa demais esse tipo de narrativa!
    Principalmente a questão das falas de uma forma e o pensamento de outra.

    Você pode escrever o que quiser.
    Ansioso pela próxima parte!

    ;*

    ResponderExcluir
  2. Massa massa!
    Isso realmente acontece... de pesarmos uma coisa e dizermos outra. Sabe... colocar "hsuahsuahs" e estar assim ---> ¬¬'

    Gosto quando as coisas realmente acontecem! Cadê o restoooo?

    :**

    ResponderExcluir