Estava sentada
naquele banco havia mais de 2 horas. Não entendia como era possível ter
calculado tão mal o horário. Tinha absoluta certeza de que o ônibus já devia
não só ter passado por ali, mas estar muito longe daquele lugar, àquela hora.
Odiava
rodoviárias: gente por todos os lados, indo, vindo, ficando, esperando, fazendo
qualquer coisa, menos realmente “estando ali”. Não os culpava. Havia no mundo
lugar mais transitório que uma rodoviária? Tentara puxar conversa com umas duas
ou três pessoas que lhe pareceram mais amigáveis, mas nenhuma conversa fora
além do “tá quente aqui, hein?” ou “e esse ônibus que não chega?”. Desistira.
Sua
situação era a seguinte: ainda tinha, segundo a moça mal-humorada do guichê,
mais duas horas de espera pela frente, nenhuma possibilidade de uma mudança nos
planos que a fizesse sair mais rápido da rodoviária e ninguém com quem
interagir. Resolveu observar sapatos. Sempre achou que os sapatos diziam muito
sobre quem os usava. Concentrou-se na tarefa para deixar o tempo passar sem
parecer pressionado: um salto tão alto que fazia a mocinha das pernas finas parecer
ainda mais magra e desengonçada; uma bota cheia de lama do trabalhador rural
que, pelo visto, havia vindo à cidade fazer a feira; um tênis desses cheios de
molas do rapaz com o celular no último volume tocando uma música de má
qualidade...
Estava
finalmente chegando em casa. Já conseguia enxergar o portão familiar e ouvia os
sons característicos daquela vizinhança. Estava com tanta saudade de todos, tinha
tantas coisas pra contar, que mal via a hora de entrar em casa. Trazia a chave bem
segura na mão fechada para não correr o risco de perdê-la por aí. Perder coisas
era sua desagradável especialidade.
Chegou
em frente ao portão. Colocou a chave na fechadura. Girou-a. Foi quando tudo
mudou completamente. O céu ficou muito escuro e um vento gelado vindo sabe-se
lá de onde atingiu-lhe o rosto. Na casa, o muro começou a desmoronar e o portão
derretia como se fosse feito de mel. Odiava mel. Em segundos, não restaria mais
nada. De repente, ouviu uma voz cuja origem não conseguia distinguir, que dizia
algo como “Não há vagas”.
-
Hey... Moça, acorde! Ah, meu Deus, era só o que me faltava! Ter que tomar conta
de passageiro dorminhoco. Moça, você vai perder o ônibus.
Levantou
de um pulo, pegou suas coisas e dirigiu-se até o guichê. Devolveu a passagem e
encaminhou-se para a saída. Já do lado de fora da rodoviária, sentiu uma brisa
fresca no rosto. Olhou para o céu ainda claro e se entreteve pensando em qual
seria a próxima estação.