domingo, 20 de maio de 2012

A Rodoviária


Estava sentada naquele banco havia mais de 2 horas. Não entendia como era possível ter calculado tão mal o horário. Tinha absoluta certeza de que o ônibus já devia não só ter passado por ali, mas estar muito longe daquele lugar, àquela hora.
Odiava rodoviárias: gente por todos os lados, indo, vindo, ficando, esperando, fazendo qualquer coisa, menos realmente “estando ali”. Não os culpava. Havia no mundo lugar mais transitório que uma rodoviária? Tentara puxar conversa com umas duas ou três pessoas que lhe pareceram mais amigáveis, mas nenhuma conversa fora além do “tá quente aqui, hein?” ou “e esse ônibus que não chega?”. Desistira.
Sua situação era a seguinte: ainda tinha, segundo a moça mal-humorada do guichê, mais duas horas de espera pela frente, nenhuma possibilidade de uma mudança nos planos que a fizesse sair mais rápido da rodoviária e ninguém com quem interagir. Resolveu observar sapatos. Sempre achou que os sapatos diziam muito sobre quem os usava. Concentrou-se na tarefa para deixar o tempo passar sem parecer pressionado: um salto tão alto que fazia a mocinha das pernas finas parecer ainda mais magra e desengonçada; uma bota cheia de lama do trabalhador rural que, pelo visto, havia vindo à cidade fazer a feira; um tênis desses cheios de molas do rapaz com o celular no último volume tocando uma música de má qualidade...

Estava finalmente chegando em casa. Já conseguia enxergar o portão familiar e ouvia os sons característicos daquela vizinhança. Estava com tanta saudade de todos, tinha tantas coisas pra contar, que mal via a hora de entrar em casa. Trazia a chave bem segura na mão fechada para não correr o risco de perdê-la por aí. Perder coisas era sua desagradável especialidade.
Chegou em frente ao portão. Colocou a chave na fechadura. Girou-a. Foi quando tudo mudou completamente. O céu ficou muito escuro e um vento gelado vindo sabe-se lá de onde atingiu-lhe o rosto. Na casa, o muro começou a desmoronar e o portão derretia como se fosse feito de mel. Odiava mel. Em segundos, não restaria mais nada. De repente, ouviu uma voz cuja origem não conseguia distinguir, que dizia algo como “Não há vagas”.

- Hey... Moça, acorde! Ah, meu Deus, era só o que me faltava! Ter que tomar conta de passageiro dorminhoco. Moça, você vai perder o ônibus.
Levantou de um pulo, pegou suas coisas e dirigiu-se até o guichê. Devolveu a passagem e encaminhou-se para a saída. Já do lado de fora da rodoviária, sentiu uma brisa fresca no rosto. Olhou para o céu ainda claro e se entreteve pensando em qual seria a próxima estação.