Apreciavam a paisagem do alto daquela bicicleta gigante. Pretendiam não se demorar no passeio, mas a vista os prendia de tal forma que era impossível não parar, olhar mais atentamente, suspirar – se o suspiro desse de querer sair –, comentar. Gostavam daquelas tardes em que o melhor a fazer era fazer o que lhes desse na telha.
Estavam já bem perto do fim da vida. Não falo da idade, embora já estivessem sim bastante avançados nos anos, mas o que mais os aproximava do fim era a paz que sentiam ao relembrar os tantos anos que passaram juntos. Não sentiam-se como acomodados, sem perspectiva ou impedidos de viver novas experiências, mas sabiam que aqueles tempos febris em que dias de passeio de bicicleta eram perdas de tempo já haviam passado, e que agora poderiam se entregar ao prazer de escolher que nova e surpreendente alegria descobririam naquele dia, e no seguinte, e no outro ainda.
- Como você considera que foi a nossa vida, meu amor? Há por acaso algum tropeço, alguma desilusão? Ou mesmo algo que tenha permanecido à sombra mesmo após tantos nasceres do Sol a que assistimos juntos?
Ela sempre fora insegura, ele achava. Sempre perguntava se havia algo errado, tentava fazer as coisas da melhor forma, dizia que não merecia alguém como ele. Ele dizia que era falta de autoconfiança e repetia que ela devia acreditar mais em si mesma. Ela, por sua vez, jamais conseguira fazê-lo entender – por mais que houvesse tentado – que aquela era a sua forma de mostrar que ele era importante e que perguntava sempre as mesmas coisas porque tudo muda e ele poderia mudar também, sem que ela percebesse – jamais admitiria perdê-lo por um descuido assim. Embora nunca tivessem chegado a um acordo sobre este ponto, sabiam, cada um a seu modo, que também isto contribuíra para aquela união feliz.
- Não, meu amor, nada faltou para nós. Mesmo os percalços foram como degraus, os quais subimos, um após outro, até que alcançássemos, enfim, os pedais desta bicicleta gigante. Somos mais felizes daqui de cima, eu acho.
Ele dissera a ela, uma vez, há muito tempo, que eles “se tornariam expoentes”. Só muito tempo depois é que eles puderam apreciar de fato a verdade contida naquelas palavras.
- Pai, mãe, vocês já podem descer daí. Estamos a salvo e tudo ficará bem agora. As crianças chegaram, que tal um lanche em família? – Mariana olhava os pais ali sentados, lado a lado naquele velho sofá laranja e sentia-se feliz por poder participar daquela felicidade. Trabalhava ela própria no alcance da sua bicicleta gigante e sabia de onde tirar o exemplo de como tornar-se expoente.