Primeiramente, me apresento: Luan Augusto Valete. Não, não sou o lado homem da dona do blog e Manifestante original (e insubstituível), Alice. Sou um ousado que deve agradecer profundamente à namorada por ceder espaço de blog dela pra uma aventura literária - achem prova de amor equivalente. Obrigado, minha Pequena.
Aí está, meu primeiro texto publicado.
***
O mendigo vinha pela ponte carregando o que tinha conseguido naquele dia. Raridade conseguir alguma coisa nesses tempos. Em bons dias, só o que se consegue é encher, não a barriga, mas os pulmões com os deliciosos ares que saem das lanchonetes da cidade. Graças a Deus existem almas caridosas no mundo, pensou o mendigo. Nem gostava de pensar no que acontece nos dias ruins.
Mas aquele era um dia excelente. Dois pasteis de carne e um tantinho de milk-shake aguado por ter capinado o que lhe pareceu uns três campos de futebol inteiros. Aquilo poderia ser o suprimento da semana. Talvez até...não. Do mês, não. As pessoas são boas, só não sabem disso, às vezes. E ele estava disposto a quase tudo. Mas ali estava ele atravessando a ponte que ligava o centro até o bairro onde o mendigo morava. Isso se você pode chamar a terceira árvore da Praça Central de moradia. Se você não pode, sorte sua. Ele chamava e, particularmente, não se considerava um cara sortudo. Pelo menos não na maioria do tempo.
Tempo fechado. Vem um “toró” aí, como dizia...alguém. E se tinha alguma coisa boa nisso era o fato que de que ele não precisava se preocupar em tirar as roupas do varal. Riu. Gostava de pensar que, não fosse a capacidade de rir da própria desgraça, já teria há muito tempo atravessado aquela mesma ponte, só que pela parte de baixo, depois de ter se jogado rio e pedras abaixo.
O fato é que ele só tinha a roupa que levava no corpo. Roupa puída e desbotada. Roupa cinza. Céu cinza. Pelo menos ele estava combinando. Riu de novo. Deveria ter entrado num circo quando criança.
Chegou na Praça e foi aos bancos que lhe convinha chamar de “praça de alimentação”. Ali comemorava os dias “excelentes” como o de hoje. E lá parou para preparar o banquete. Viu um cachorro vira-lata embaixo do banco à sua frente. Mais magro, cinza e feio que ele mesmo. “Sempre tem alguém pior”, é o que dizem.
Mas, sinceramente, não podia ver como ele poderia estar melhor que aquele cachorro. Pelo menos o cão morreria mais cedo, enquanto o mendigo teria que viver ainda mais naquele mundo que parecia cada vez mais magro, puído, desbotado e cinza. Outro buraco, além daquele que tinha no estômago, abria em seu coração. Tão grande quanto. Às vezes pensava que alguém lá em cima, não Deus (que Ele o perdoasse, “creindeuspaidi”!), estava realmente de sacanagem com um bocado de gente aqui embaixo. Enfim.
Hoje, pelo menos, ele encobriria um dos buracos.
Comeu. E o “toró” veio.