segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Imago - parte II

Continuaram a conversar até que concluíssem a tarefa de enganarem-se sobre “já serem amigos”, e “poder confiar” nisso. Se falavam o tempo todo e faziam um esforço enorme para não faltar assunto – admirável!

Resolveram se encontrar: seria em frente à delegacia, por que não!? odiavam clichês – como é clichê, afinal todos odeiam – e queriam, secretamente, testar os nervos próprios e alheios. Às 8 da manhã, estavam ambos animados, ansiosos, temerosos. Temiam por si, por suas identidades e por coisas que nem ousavam imaginar, mas pensavam que ali estariam seguros, na medida em que era possível estar.

Nesse momento, se viram. O que aconteceu a partir deste momento foi obra de um pernicioso acaso ao qual eles seriam gratos pelo resto de suas vidas – ou não.

Ele: mãos no bolso, encostado na parede. Como ela previra, um tipo sedutor e charmoso, nada mais que isso. Sorriu um sorriso torto que pretendia ser conquistador. Tudo nele parecia ser calculado para atrair a “presa”.

(À Açucena, parecia que ele estava muito menos empolgado do que parecia, mas isso não a perturbava, afinal, “esta não é uma história de amor”, ele era só mais um dado estatístico).

Ela: vestidinho de chita – precisava manter o personagem –, cabelos soltos e uma leveza que de tão fingida parecia natural. Estava apreensiva, sempre ficava.

(Na opinião de Levi, era do tipo de mulher que jamais precisaria de seus préstimos, pois aquele sorriso resolveria qualquer problema... Mas o que é isso, Levi?! Ela é mais um “laboratório”, esqueceu!?).

Não, nenhum dos dois estava realmente apaixonado ou se apaixonando, mas qualquer simpatia maior podia arruinar os planos de ambos. Abraçaram-se timidamente, trocaram os beijinhos de praxe – dois, e não “três pra casar” –, e resolveram ir comer algo, já que ambos haviam acordado nervosos demais para tomar café da manhã. Aqui começaram os problemas: ele era vegano, e ela, uma consumidora inveterada e descontrolada de pães de queijo. Decidiram pelo shopping, onde a praça de alimentação oferecia ambas as opções num só espaço.

Nunca poderiam imaginar o que aconteceu a seguir. Sentaram, e chamaram o garçom. Enquanto este não chegava, resolveram, num movimento quase automático, deixar os celulares ao alcance: ela pegou o telefone modelo antigo e confiável de dentro da bolsa, enquanto ele tirava do bolso de trás da calça (conhecia os riscos que o ato de levar o celular no bolso da frente trazia à fertilidade masculina) um iphone de última geração – praticamente descartável –. Colocaram-nos sobre a mesa. Pediram e esperaram pela comida conversando alegremente, até que de repente, o telefone de Levi começa a tocar “A chave da porta da Frente”, Frejat. Ao pegar o aparelho, Levi foi percorrido por uma descarga elétrica que fez seu corpo todo estremecer, um ruído fino tomou o ambiente e duas pequenas explosões aconteceram. No momento seguinte, estavam ambos desorientados e perplexos com a situação. Havia fumaça saindo de seus bolsos: foram descobertos!


Continua!

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Imago - parte I

Enquanto trocava palavras descabidas com pessoas tão desocupadas quanto eu, ocorreu-me uma lembrança muito curiosa: uma história incomum, pautada num forte instinto de autopreservação e sem nenhum romantismo. Rememorando os acontecimentos daquela semana, resolvi que era hora de escrever, não com o intuito de instruir ou dar lições de vida, mas só por exercício mesmo. Espero sinceramente que isso tudo tenha realmente acontecido, mas, se em último caso, for fruto de uma mente desviada, que esta mente seja mesmo a minha.

“ATENÇÃO, ESTA NÃO É UMA HISTÓRIA DE AMOR!”

Era o que diziam um pro outro no início de cada conversa. Funcionava como uma senha, que os distinguia dos demais participantes do chat, que eram quase sempre homens velhos e mal casados com fetiches pouco usuais, garotas carentes de atenção e bom senso, e meninos cheios de espinhas ou esteróides com problemas sexuais de ordem diversa.

Eles não gostavam daquela situação, e a cada nova sessão, quando postavam a tal senha, tinham que lidar com uma chuva de propostas para“ transformar esta história num amor de verdade”, “mudar o rumo desta conversa” ou ainda “viver histórias sem amor mesmo”. Foi por isso que decidiram conversar a sós. Depois das devidas providências, estavam enfim no conforto de uma janela privativa e silenciosa.

Resolveram começar de novo, rememorando o que já sabiam sobre o outro. Funcionava mais como um jogo de interesses do que como um exercício de memória: atraia-os a possibilidade de se sentirem o assunto da vez. Ele começou, valendo-se do cavalheirismo de deixar que ela pensasse mais – a verdade é que tinha medo de esquecer o que ela havia lhe contado.

Ele: vc se chama Açucena, odeia ter nome de flor, porque isso te dá uma aura delicada que vc detesta. Tem mais de 20 anos e me basta saber disso, certo!? É a sétima filha de uma família que mora numa cidade pequena, fala 4 idiomas e estuda comportamentos.

(O que ele realmente pensava era: é uma mulher-macho com problemas etários, que fala como gente da roça e impregna cada um desses idiomas com esse sotaque infeliz, o que deve ser muito feio de se ouvir. Escreve pra uma revista de moda de quinta categoria, sobre estampas e babados, mas deve ser bonita e certamente tem dinheiro).

Ela: nossa, vc se lembrou de tudo! Agora é a minha vez: o nome é Levi, tem 25 anos, e está feliz por enfim tê-los completado. Ouve música, lê, vai ao cinema, mas tudo isso como parte de um permanente trabalho de pesquisa para sua função de autônomo. É um livre-pensador.

(Na realidade, Açucena pensava: um sossegado que vive das parcas conquistas que faz. Superestima seu desempenho sexual, e sua beleza física, e se considera um intelectual. Bonito e divertido, pode ser um bom material de pesquisa).


Continua!

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Ensaio sobre o inacabado


De inacabado, eu entendo. Ou ao menos de deixar coisas inacabadas, certamente. Este texto é um exemplo perfeito dessa minha mania. Mas não é por preguiça não, viu!? Tá, não é SÓ preguiça... não em todas as vezes, pelo menos.

O caso é que algumas pessoas têm o imenso defeito de não aceitar os fatos da vida, e, dessa forma, ignoram as condições excludentes que envolvem viver e estudar. A regra é: ou bem se vive, ou bem (ou mal) se estuda, uma hora ou outra uma coisa vai, fatalmente, impedir a outra, e, no meu caso, os estudos andaram vencendo a guerra.

Bem, depois da sessão de explicações que não convencem e que soam melhor quando chamadas de “desculpas esfarrapadas para preguiça extrema”, vamos ao que interessa.

A meu ver, o inacabado não é algo essencialmente ruim. É mais como se fosse um estado transitório, e necessário a todas as coisas, mas que se faz necessário como permanente a algumas delas... ficou claro o que eu quis dizer?! Bem, algumas coisas precisam não ter fim, é isso!

Eu deixo várias coisas sem conclusão: livros, filmes (estes, principalmente), textos, sorvetes, pipoca, café com leite... enfim, não pôr fim às coisas – e esquecer algumas delas – é a minha cara mesmo! Mas isso não significa que elas não são boas ou que eu não me interesso por elas, só que o tempo delas passou e então... ah, fica pra depois, né?!

Pior do que deixar sem conclusão mesmo, é concluir de qualquer jeito e sem interesse. Sou a favor de parar um livro e começar outro, deixar o filme pra amanha, o sorvete no pote e jogar fora o último gole de café com leite frio; e também faço o primeiro traço pra outra pessoa mais talentosa concluir (é mais seguro!).

Sem mais filosofias de fundo de gaveta, eu me despeço citando Faustão (desculpem por isso): “Obrigada pela sua audiência e sua paciência!”


Ah!, quase esqueci (estão vendo aí!?) de dizer que “inacabar” também pode ser um ótimo exercício para a memória. Um exemplo é este texto, que demorou tanto pra sair que deve ter fugido da memória de quem o sugeriu... Tá aí, Heldinho! Obrigada pela sugestão, pela paciência e pela parceria sempre!