Continuaram a conversar até que concluíssem a tarefa de enganarem-se sobre “já serem amigos”, e “poder confiar” nisso. Se falavam o tempo todo e faziam um esforço enorme para não faltar assunto – admirável!
Resolveram se encontrar: seria em frente à delegacia, por que não!? odiavam clichês – como é clichê, afinal todos odeiam – e queriam, secretamente, testar os nervos próprios e alheios. Às 8 da manhã, estavam ambos animados, ansiosos, temerosos. Temiam por si, por suas identidades e por coisas que nem ousavam imaginar, mas pensavam que ali estariam seguros, na medida em que era possível estar.
Nesse momento, se viram. O que aconteceu a partir deste momento foi obra de um pernicioso acaso ao qual eles seriam gratos pelo resto de suas vidas – ou não.
Ele: mãos no bolso, encostado na parede. Como ela previra, um tipo sedutor e charmoso, nada mais que isso. Sorriu um sorriso torto que pretendia ser conquistador. Tudo nele parecia ser calculado para atrair a “presa”.
(À Açucena, parecia que ele estava muito menos empolgado do que parecia, mas isso não a perturbava, afinal, “esta não é uma história de amor”, ele era só mais um dado estatístico).
Ela: vestidinho de chita – precisava manter o personagem –, cabelos soltos e uma leveza que de tão fingida parecia natural. Estava apreensiva, sempre ficava.
(Na opinião de Levi, era do tipo de mulher que jamais precisaria de seus préstimos, pois aquele sorriso resolveria qualquer problema... Mas o que é isso, Levi?! Ela é mais um “laboratório”, esqueceu!?).
Não, nenhum dos dois estava realmente apaixonado ou se apaixonando, mas qualquer simpatia maior podia arruinar os planos de ambos. Abraçaram-se timidamente, trocaram os beijinhos de praxe – dois, e não “três pra casar” –, e resolveram ir comer algo, já que ambos haviam acordado nervosos demais para tomar café da manhã. Aqui começaram os problemas: ele era vegano, e ela, uma consumidora inveterada e descontrolada de pães de queijo. Decidiram pelo shopping, onde a praça de alimentação oferecia ambas as opções num só espaço.
Nunca poderiam imaginar o que aconteceu a seguir. Sentaram, e chamaram o garçom. Enquanto este não chegava, resolveram, num movimento quase automático, deixar os celulares ao alcance: ela pegou o telefone modelo antigo e confiável de dentro da bolsa, enquanto ele tirava do bolso de trás da calça (conhecia os riscos que o ato de levar o celular no bolso da frente trazia à fertilidade masculina) um iphone de última geração – praticamente descartável –. Colocaram-nos sobre a mesa. Pediram e esperaram pela comida conversando alegremente, até que de repente, o telefone de Levi começa a tocar “A chave da porta da Frente”, Frejat. Ao pegar o aparelho, Levi foi percorrido por uma descarga elétrica que fez seu corpo todo estremecer, um ruído fino tomou o ambiente e duas pequenas explosões aconteceram. No momento seguinte, estavam ambos desorientados e perplexos com a situação. Havia fumaça saindo de seus bolsos: foram descobertos!
Continua!
