
Sem mais demoras, precisavam conversar. O local mais acessível em que poderiam ter a privacidade de que precisavam era o motel na saída da cidade, foram para lá. Ah, qual é?! Eles estavam desesperados demais para pensar em sexo... suas carreiras poderiam ser arruinadas!
Chegaram, entraram e pediram o quarto. Ninguém se sentou na cama – tinham um nojo secreto de motéis –, resolveram conversar de pé mesmo. Sem saber o que fazer, ela virou-se e ficou de costas. Falaram ao mesmo tempo:
Ela: Por que um gigolô carregaria um sistema de escuta no bolso da camisa?!
Ele: Por que uma estilistazinha de quinta documentaria um encontro?
Ela: Epa!! Estilistazinha de quinta?!
Ele: Hey, espere... gigolô não!
Foi então que perceberam que a confusão era muito maior do que calculavam. Entenderam a tempo que seria melhor contar toda a verdade e torcer para que ambos tivessem algo a perder com a revelação de seu segredo. Desta vez foi Levi quem começou:
- Bem, a verdade é que eu tenho uma profissão um tanto incomum, e o anonimato é fundamental para o meu sucesso.
Sem entender nada, ela retrucou:
- Até aí, nenhuma novidade, certo!? Também mantenho sigilo sobre tudo que envolve meu trabalho. Mas se for enrolar muito com esse papo, você pode descer e renovar a diário, pois só sairemos daqui amanha!
Imperturbável, Levi prosseguiu:
- Veja: eu sou um “contador de casos”, soluciono problemas familiares – quase sempre conjugais – oferecendo ao “alvo” a versão que ele deseja ouvir para problemas que prefere ignorar. Explico melhor: há um tempo, uma mulher me procurou no escritório em que eu trabalhava escrevendo contos de suspense, e disse que seu marido desconfiava de que ela o traía, no que estava certo. Então me contratou para que eu inventasse desculpas para as saidinhas inocentes dela, algumas tardes por semana. Como meu trabalho é inventar a história e oferecer os subsídios para que ela pareça verdadeira, liguei para o marido e ofereci aulas grátis de “artes do amor” à sua esposa, com uma professora tailandesa. Disse que a única condição seria de que ele não fizesse perguntas, pois se tratava de uma experiência sigilosa que visava a sondar a aceitação deste tipo de negócio naquela região. Meu trabalho se completa quando o detetive particular manda a conta e diz ao maridão que a madame é inocente.
Açucena parecia feita de cera: branca e imóvel, mal respirava. Então o cara era um maldito mentiroso de aluguel! Recuperou-se como pôde e fez logo questão de atacar novamente, antes que ele percebesse sua perplexidade.
Ela: mas o que alguém como você faz na internet procurando pessoas, marcando encontros, e o que é pior: registrando-os sem a permissão alheia?
Era uma questão importante, que Levi passou todo o tempo que ela usou para perguntar, pensando em como responder. Já previa que ela notaria este detalhe.
- Bem, eu preciso de inspiração, certo? Mais que isso: eu preciso de ideias. Essas mulheres todas falam sem parar durante nossos encontros, e estudando sua fala posteriormente, colho o material de que preciso para construir minhas histórias.
Antes que ela perguntasse mais, resolveu inverter a situação:
- Mas sim, acho que chegou a vez da bela flor Açucena se explicar, não!? O que faz afinal uma mulher que sai de casa num dia de manha munida de um encantador vestido florido e um sistema de escuta?
Sim, era a vez dela. Pela sinceridade com que demonstrava seu nervosismo, Açucena percebeu que Levi falara a verdade, e decidiu fazer o mesmo. Seja o que Deus quiser!
Ela: certo, minha vez: eu sou uma estudiosa do comportamento humano, sabe?! Em minha tese de doutorado, a qual defendi há alguns anos, eu tinha como objeto de pesquisa os desvios comportamentais masculinos. Depois de reler meus estudos, resolvi ampliá-los e transformá-los num livro, mas, para isso, precisava de informações novas e uma temática mais definida. Pensando nisso, desenvolvi um programa de coleta de dados que funciona assim: procuro em salas de bate-papo, homens que apresentam algum desvio de personalidade, especialmente de caráter sexual, converso com eles para descobrir de que se trata exatamente, e marco um encontro. Se perceber que é um caso que realmente vale à pena, convido o cavalheiro para um “lugar mais confortável” e então ponho em prática meus métodos de estudo. É isso.
Parece que o estado em que Açucena se encontrava antes havia contagiado Levi. Dentre as mil perguntas que vinha à sua mente, ainda pairava a dúvida de ele fazer ou não parte daquele experimento maluco. Estava com medo, mas não deixou transparecer, perguntou outra coisa, igualmente importante.
- O que exatamente você chama de “métodos de estudo”? Eu entendi bem, ou é tortura, o que você faz?
Era a vez de ela ficar numa saia justa. Diria tudo? Uma parte apenas? Decidiu:
- Bem, o que eu faço é fazer o “joguinho” que eles mesmos certamente proporiam, mas dessa vez tendo eles como brinquedo. Para um pedófilo, cócegas infinitas e grandes doses de doces e chocolates... Grandes doses!
Seus olhos brilhavam um brilho malicioso, foi se aproximando dele e falava com uma naturalidade que deixava Levi realmente amedrontado:
- Eu descobri que é muito eficaz, este método... os pacientes se mostram arrependidos, ao final... você precisa ver como imploram por perdão e para que eu pare de brincar! Funciona mesmo! Eu não me excedo, sabe?! Nunca passei dos limites... bem, só algumas vezes, mas foram acidentes: 3 pedófilos e 2 sádicos, coisa pouca. Eles devem estar felizes, onde estão... expiaram a tempo seus pecados. Acho que um psicólogo me diagnosticaria como sociopata ou algo assim, mas eu prefiro dizer que tenho um apurado senso de justiça e uma boa dose de inteligência.
Bem, agora ele estava apavorado! O que faria, então!? Mas parece que ela lera seus pensamentos, e enquanto ele pensava nisso, ela decidiu o que fazer. Desceram as escadas em direção à recepção. Com suas melhores caras de “cansados felizes”, pagaram a conta e foram para a rua. Chegando à porta, sem despedidas demais, se separaram: ela para a esquerda e ele para a direita. Nunca mais se veriam na vida, era mais seguro assim. Embora pudessem ser de grande ajuda um ao outro, não aceitaram correr o risco. Aquela história, que não era de amor, acabou então sendo de terror pelo próximo e autopreservação. Não lamentaram não... foi bom poder falar com alguém, mas conviver com a lembrança de que alguém no mundo sabia de tudo era demais para ambos.
Naquele mesmo dia Açucena conheceu André no bate-papo, e começou a conversar com ele, já preparando o próximo “estudo de caso”. Levi, abalado demais para solucionar o problema da jovem Vanessa, que todos os dias voltava com uma flor diferente nos cabelos e uma essência masculina na pele, tomou calmantes e dormiu. Esperava não sonhar com uma flor de Açucena nos cabelos de madame Vanessa.
Fim!
Agradecimentos especiais à colaboração de Luan Valete, que testa a eficácia das minhas histórias nos chats por aí, e que sabe-se lá com que nível de sinceridade aprova as besteiras que eu falo e escrevo; e ao incentivo incondicional do sempre parceiro Hélder Silva.