segunda-feira, 21 de março de 2011

E sorriu.

Havia acontecido assim: andava pela rua com o namorado e duas amigas, quando o viu. Estava sentado e sozinho, não tinha mais do que cinco anos, e sorria um sorriso estranhamente feliz, como se alguém por quem esperava, havia muito, tivesse acabado de chegar.

Não lhe deu atenção, afinal, já vira muitos iguais a ele pelos cantos. Continuou andando. Mas ele sabia quem era ela, e não a deixaria sumir de novo: seguiu-a. Quando ela corria, ele corria, quando ela parava, ele parava.

Ela percebera que estava sendo seguida e, se não parou, foi para tentar não piorar as coisas. Até que chegou o momento em que teve de interromper-se e esperar que passassem várias crianças, guiadas pelo que parecia ser sua professora. Esperou que o pequeno as seguisse, mas ele continuava ali, irredutível. Continuaram.

Por um descuido, tudo se esclareceu. Ela atravessava a rua sem olhar para os lados, quando um carro veio rápido demais para parar a tempo, iria atropelá-la, na certa. Sem pensar muito, o garoto se jogou nos braços dela, e saíram da direção do carro, que passou a toda velocidade.

Ainda se recuperando do susto, o menino falou, com sua voz fininha que mesclava medo e certa indignação:

- Não morre não, Tia, você não pode morrer, sabe?! No meu sonho, você me levava pra casa, como você quer morrer agora que eu te achei? Não pode, Tia!

Ela não estava entendendo mais nada. Nunca o vira antes, mas sentia que ele falava uma verdade que até então só ele conhecia, mas que nem por isso era menos verdadeira. Ele repetia sem parar aquela frase “por que você não me leva pra casa, Tia”, e ela, sem ação, não sabia como responder àquela pergunta tão simples.

Foi então que o namorado aproximou-se dos dois e, na tentativa de colocar o menino de volta no chão, segurou-o pela mão. O garotinho não se abalou, reconhecia aqueles dois, e não tinha medo algum deles. Passou o bracinho magro no pescoço do homem e falou:

- Oi, Tio, nem tinha visto direito você aqui. Você também tava no meu sonho. Você me levava no colo até a casa da Tia. Vocês dois cuidavam de mim, no meu sonho.

Mais uma vez, não houve reação. Era muito simples, aquela mensagem: estavam ali duas pessoas que haviam, de alguma forma, se tornado responsáveis pela vida de uma terceira, e este era o momento de essa história começar.

Ainda na tentativa de tirar o menino dali, a amiga que assistia aquela cena pegou-o pela cintura e puxou-o delicadamente. Surpreendentemente, ele apenas virou-se e disse:

- Não, moça, você não estava no meu sonho, viu!?

E abraçou a Tia e o Tio, como se assim, nunca mais fossem se separar.

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Acordou pensando naqueles traços que, mesmo tão diferentes dos seus, reconhecia como sendo de alguém por quem já nutria um carinho muito grande. Ele era baixinho, muito magro, e, definitivamente, precisava de cuidados. Era negro e tinha o cabelo, muito enroladinho, ainda pequeno. Os olhos espertos e o sorriso de dentes pequeninhos davam-lhe um aspecto de criança inteligente. O nariz pequeno, os lábios grossos e as bochechas gordinhas, estampados em seu rostinho redondo, eram um convite a um sorriso.

Contou sobre aquele sonho ao namorado, e depois a algumas outras pessoas, mas tinha dentro de si a certeza de que não havia acabado ali.

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Dias depois, sonhou de novo, não o mesmo sonho, mas a continuação dele.

Estavam em casa, num dia comum, e ela chamava alguém, cujo nome lhe parecia familiar. Érico veio, todo saltitante.

- Chamou, Tia? É hora do banho? Tô indo, Tia, não vou demorar, viu!? "Sem atrasos" hoje, prometo!

E sorriu.

sábado, 12 de março de 2011

Moderato

Eram instrumentistas. Ele, do contrabaixo, e ela, da flauta transversal. A música tomava suas vidas de tal forma, que poderiam se considerar parte dela, e não o contrário.
Francisco era a semibreve, com sua personalidade estável, marcante, seu caráter tranquilo, e conhecida eloquência. Inspirava confiança, e perto dele, qualquer um se sentia seguro. Era crível. Isa, a bela semifusa, era bem diferente. Alegre e fugaz, gostava do efêmero, do transitório. Agia inesperadamente e com uma leveza que encantava uns e escandalizava outros tantos. Não era um peso viver, era incrível.
Mesmo tão diferentes, se gostavam. Eram casados há 5 anos, mas se conheciam da vida toda. Eram contemporâneos no Conservatório, e haviam entrado juntos da Orquestra Sinfônica. Se entendiam tão perfeitamente nas salas de concerto, que era difícil conceber que fosse tão diferente a sua vida longe dos palcos.
Não se acompanhavam, esta era a verdade. Seus andamentos diferentes tornavam difícil a tarefa de manter o compasso: ele pedia um andante, mas ela ditava o allegro. Os legatos dele, tão opostos aos staccatos de que ela tanto gostava, desarmonizavam aquela cantata.
Francisco era a unidade de compasso daquele lar, e Isa esforçava-se, era verdade, para conseguir ser uma unidade de tempo que se preze. Ele preenchia com pausas, os compassos em que ela mal soava, enquanto ela procurava em outras semifusas companhia para, talvez em grupo, tentar encontrar seu lugar naquela partitura. Mas um dia, assim, sem mais ritornelos ou fermatas, cortando os pontos de aumento, Isa partiu para a segunda voz.
E foi então que o inesperado os alcançou: a música parou, e o silêncio, pesado e frio veio trazer à mente uma melodia antiga: uma ária que cantava o amor e a saudade, e que emocionava, não por ser triste, mas por ser verídica. Ele pensou na vida com-fusa de que vivia reclamando, mas que, sabia muito bem, amava infinitamente. Ela, por sua vez, se lembrou de como era breve a duração de uma nota tão pequena e frágil: ela era a mordente principal na pauta da vida dele.
Decidiram corrigir aqueles trechos subtonados de sua vida: traçaram novo pentagrama, escolheram a mais luzidia das claves de sol e compuseram a nova suíte para contrabaixo e flauta. Um compasso novo para uma melodia incomum. Estava feito aquele duo, em prelúdio, refrão e desfecho. O maestro de suas vidas tomou a partitura, colocou-a na estante e empunhou a batuta. O concerto iria recomeçar.